sábado, 14 de junho de 2014
"Eu sinto medo da solidão, mas de tanto temer me acostumei com a presença dela e agora ela faz parte de mim. Tenho medo dos meus pensamentos, do barulho dos trovões e da noite. Tenho medo da minha imaginação e das minhas palavras que simplesmente acontecem sem medo.
Tenho um medo doído de nunca conseguir me sentir bonita. Mais medo ainda de admitir que toda a minha falta de vaidade é só um refúgio pra minha baixa-estima. Tenho medo da minha eterna insatisfação – e aí eu percebo que usei a palavra eterna, e a eternidade me dá medo pra cacete.
Eu sinto medo de dormir, porque eu sei que vou ter que acordar e acordar me dá um medo violento. Também tenho medo de ser fria demais, por isso exagero e acabo tendo muito mais medo de ser de verdade, porque eu tenho medo das minhas verdades.
Sinto medo de crescer e mais medo ainda de ser pra sempre criança. Tenho medo de pensar que já sou adulta e que a juventude é passageira. Morro de medo da velhice e de me sentir impotente. A impotência me dá ânsia de vômito, e eu quase vomito de tanto medo que eu tenho de vomitar.
Eu me contorço de medo de saber que existe alguém que vá me fazer feliz, e aí eu choro de medo da alegria que eu vou sentir, porque eu sempre me aproximo mais de mim na tristeza. Eu tenho pavor da finitude da paixão, aí eu sempre encurto o caminho e acabo sofrendo de medo de não me apaixonar de verdade nunca mais. Eu sempre tenho mais medo que se apaixonem por mim do que de me apaixonar por alguém, porque eu sei o que é sofrer por quem não merece.
Tenho medo da minha insegurança, que me deixa tão sem chão que eu preciso me reafirmar o tempo todo. Aí eu fico tão de saco cheio que eu tento acreditar um pouco em mim sem essa mania de auto-afirmação e morro de medo de ser só mais uma pra todos. Eu morro de medo de não atender expectativas, aí eu fico nervosa e não atendo mesmo e fico me sentindo a pior das criaturas. Eu tenho medo de ser a pior das criaturas.
Eu tenho medo que descubram que eu falo sozinha, que percebam que a minha loucura é permanente. Eu sinto medo dos meus personagens, que de tão reais criam vida própria e me fazem perder o controle. Eu tenho medo da minha falta de controle e muito, mas muito, mais medo de quando eu posso controlar qualquer coisa.
Eu sinto medo dos meus sonhos, porque eles sempre me trazem surpresas e eu sempre acabo acreditando que um dia elas vão acontecer. Eu tremo e gaguejo de medo de parecer ridícula e a minha preocupação se torna tão ridícula que eu tenho medo que descubram o que acontece aqui dentro.
Eu tenho tanto medo da saudade que eu sinto do que não aconteceu, que viver cada dia se tornou uma constante busca por um passado que eu não vivi. E o meu maior medo (um medo filho-de-uma-puta que não me abandona um segundinho sequer) é não viver de verdade." Marina Melz
sexta-feira, 13 de junho de 2014
"Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?
Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos." Martha Medeiros
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