quinta-feira, 7 de maio de 2015

"Você acorda lindo. Se espreguiça com barulhos tão gritantes quanto sutis. Me aproximo, te beijo o rosto e pergunto “dormiu bem?”. A resposta é a mesma de quando eu pergunto se você vai ficar bem depois de uma situação difícil ou então quando me pego te questionando se vamos casar logo. Não. Poderia doer, poderia machucar, poderia me deixar irritada essa mania de você ser transparente. Mesmo quando o sentimento não é tão simples ou tão brando quanto a sonoridade do seu não, ele não é sim pra agradar ninguém. Nem a mim. Ao invés de sofrer e pedir pra que você mude, eu te amo mais a cada não. Não vai aos jantares profissionais porque não gosta daquelas pessoas, não quer pepperoni, não quer uma banda pra fazer show, não quer que as pessoas conheçam as suas músicas ou saibam da sua dor. Não e pronto. Ouvi que devemos julgar as pessoas pelo seu silêncio. E eu amo os seus nãos mesmo quando eles chegam sem som. Como quando você levanta no meio de um documentário que eu insisti para vermos e vai ler ou quando eu digo que vou a algum lugar e você permanece em silêncio. Eu invejo seus nãos. Parece uma incoerência, mas o meu único não é para dizer essas três letrinhas quando elas deveriam sair da minha boca sem explicação. Eu tento ser leve quando me vejo explodindo por dentro, digo que podem pegar o último pedaço de pizza quando estou com vontade ou deixo a minha vaga de estacionamento pra alguém que chegou depois. Porque eu não sei dizer “não, não pode”. Porque eu não sei agir pelos meus instintos, porque eu desaprendi a postura de quem eu sou pra tentar sem quem eu gostaria de ser. Fiquei num meio termo que é quase insustentável, mas é tudo o que eu tenho. Você, não. Não mesmo, não sempre. Você é honesto contigo, mas não deixa nunca de ser justo comigo. Você me lembra o tempo inteiro, mesmo sem dizer nada, que eu tenho alguém pra viver comigo, não pra se fundir à minha personalidade. Reafirma o dia todo, em silêncio, que não é a minha metade da panela, mas alguém inteiro que respeita, acima de tudo, a você mesmo. Eu te amo porque você me ensinou que todos os nãos guardam um motivo, uma sugestão e uma incógnita. E porque apesar de todos eles, pra me deixar entrar na sua vida e bagunçar tudo, você sempre disse que sim." Marina Melz

sábado, 14 de junho de 2014

"Eu sinto medo da solidão, mas de tanto temer me acostumei com a presença dela e agora ela faz parte de mim. Tenho medo dos meus pensamentos, do barulho dos trovões e da noite. Tenho medo da minha imaginação e das minhas palavras que simplesmente acontecem sem medo. Tenho um medo doído de nunca conseguir me sentir bonita. Mais medo ainda de admitir que toda a minha falta de vaidade é só um refúgio pra minha baixa-estima. Tenho medo da minha eterna insatisfação – e aí eu percebo que usei a palavra eterna, e a eternidade me dá medo pra cacete. Eu sinto medo de dormir, porque eu sei que vou ter que acordar e acordar me dá um medo violento. Também tenho medo de ser fria demais, por isso exagero e acabo tendo muito mais medo de ser de verdade, porque eu tenho medo das minhas verdades. Sinto medo de crescer e mais medo ainda de ser pra sempre criança. Tenho medo de pensar que já sou adulta e que a juventude é passageira. Morro de medo da velhice e de me sentir impotente. A impotência me dá ânsia de vômito, e eu quase vomito de tanto medo que eu tenho de vomitar. Eu me contorço de medo de saber que existe alguém que vá me fazer feliz, e aí eu choro de medo da alegria que eu vou sentir, porque eu sempre me aproximo mais de mim na tristeza. Eu tenho pavor da finitude da paixão, aí eu sempre encurto o caminho e acabo sofrendo de medo de não me apaixonar de verdade nunca mais. Eu sempre tenho mais medo que se apaixonem por mim do que de me apaixonar por alguém, porque eu sei o que é sofrer por quem não merece. Tenho medo da minha insegurança, que me deixa tão sem chão que eu preciso me reafirmar o tempo todo. Aí eu fico tão de saco cheio que eu tento acreditar um pouco em mim sem essa mania de auto-afirmação e morro de medo de ser só mais uma pra todos. Eu morro de medo de não atender expectativas, aí eu fico nervosa e não atendo mesmo e fico me sentindo a pior das criaturas. Eu tenho medo de ser a pior das criaturas. Eu tenho medo que descubram que eu falo sozinha, que percebam que a minha loucura é permanente. Eu sinto medo dos meus personagens, que de tão reais criam vida própria e me fazem perder o controle. Eu tenho medo da minha falta de controle e muito, mas muito, mais medo de quando eu posso controlar qualquer coisa. Eu sinto medo dos meus sonhos, porque eles sempre me trazem surpresas e eu sempre acabo acreditando que um dia elas vão acontecer. Eu tremo e gaguejo de medo de parecer ridícula e a minha preocupação se torna tão ridícula que eu tenho medo que descubram o que acontece aqui dentro. Eu tenho tanto medo da saudade que eu sinto do que não aconteceu, que viver cada dia se tornou uma constante busca por um passado que eu não vivi. E o meu maior medo (um medo filho-de-uma-puta que não me abandona um segundinho sequer) é não viver de verdade." Marina Melz

sexta-feira, 13 de junho de 2014

"Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como? Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra. Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra. A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas. “Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia. Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos." Martha Medeiros

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Deixar que me veja assim, tão exposta, dá medo. Deixar que me veja assim tão fraca, me dá muito medo. É inevitável lembrar de todas aquelas histórias, de todos os momentos que me faziam tão bem, que no final eu destruí. De todos os planos, de todos os sonhos, do futuro que eu nem cheguei a viver e deixei pra trás. Eu que já tomei tanto na cabeça, que já vivi tantos amores eternos mas que no fim não chegaram nem a dobrar a esquina, aprendi a usar a decepção pra converter o tempo de solidão em tempo de desapego. Até que ser sozinha não era mais problema, era solução. E eu aprendi a cair fora antes que caísse de cara. Aprendi a dizer adeus sem ao menos olhar pra trás pra ver a marca que eu havia deixado. Aprendi que quanto mais fácil eu soubesse dar tchau, melhor eu ficaria. E eu me orgulhei disso. Eu criei a certeza que no fim eu sempre ficaria bem, até porque o fim sempre chegava. Hoje já não sei o que mais me assusta, esses ou aqueles dias. O que mais me dá medo hoje é a desconstrução de tudo que construí dentro de mim. Eu que achava que nunca mais iria me apaixonar, me apaixonei. E apesar da dificuldade transformada em pavor de me entregar, eu me entreguei. Cedi minha vida à um amor o qual, esse sim, era eterno. Não foi. Ou é. Não, não foi. Eu, meu medo e meus processos mentais falhamos. Por vezes soube levar de forma a me orgulhar de mim mesma, de forma a não me reconhecer tão entregue. Outras vezes nem tanto assim. Vezes essas que foram cruciais. Que levaram ao fim, que me levaram ao fim. Voltar a acreditar no amor me deu medo. Voltar a acreditar e me ver sem solução pra isso me dá pânico, juro. Porque naquela época eu já havia me afogado tanto, que aprendi a nadar. Decidi então mergulhar de cabeça, mas já não me submergia há tanto tempo que não lembro mais como voltar pra respirar, e eu sei que esse é o tipo de coisa que pode me afogar.
Desde ontem eu to com vontade de você. Sexo por telefone, haha, que ridículo. Ridículo tal qual nós sempre fomos com a nossa vontade ridícula de se ter, de se tocar, de se saciar. Onde quer que fosse, sem hora, sem regra. Desde ontem não saiu da minha cabeça a imagem tão viva que eu não vi, o toque aveludado do seu corpo que eu não senti. Era fechar os olhos e te ter ao meu lado, até mais intensamente que algumas vezes em que podia te ter fisicamente. Passar a minha mão pelo seu corpo perfeito e sentir que aquele lugar era meu, pois não havia curva do seu corpo onde eu não me encaixasse, onde meus beijos não fossem bem vindos. Sua respiração. Consegue se ouvir? Como se eu pudesse parar de inalar e ter a certeza de que não me faltaria ar. Lamber a sua virilha, mordiscar a parte interna da sua coxa, te fazendo soltar um suspiro de prazer que levava sua cabeça pra trás e trancava seus olhos. Sinto saudades de respirar o mais profundo que eu podia no seu ouvido, de me perder tentando achar uma explicação pro seu sorriso, pra sua inconsciência causada pelo prazer que eu te provocava. Que não cabia em você. Até que explodia entre gritos e gemidos que me transportavam, que nos transportava, que nos consolidava. Dure o tempo que durar. Dure o tempo da musica que eu ouço e me traz você, dure o tempo do texto que eu escrevo pra te ter. Dure o tempo que durar eu vou te amar, e mesmo quando você não estiver mais aqui pra me ouvir, eu vou te amar de vez em quando, só pra fingir que não te amo sempre.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Alguma vez você já se sentiu especial? Já sentiu que era única pra alguém? Soube de alguém que pensa em você 24 horas? Que lembra de você nos detalhes mais sórdidos do dia a dia? Alguém que chora por você, que ri por você? Alguém que não aceita quando você não está e fantasia, ainda que não deva, a sua chegada? Alguém que por semanas sonha com você todos os dias, que fala de você como se você ainda estivesse ali? Alguém que se pergunta todo o tempo o que você tem de tão especial pra mobilizar toda uma vida? Alguem que não sabe o que fazer ao não poder simplesmente fazer o que fazia por você? Alguma vez vc ja soube que alguém te ama tanto ao ponto de querer por perto todos os seus defeitos? Alguém que tenha perdido o chão e o sentido de um futuro planejado? Você já se sentiu especial pra alguém ao ponto de saber que você é unica e só você pode fazer esse alguém feliz? Já soube de alguém que mataria por você e se mataria sem você? Alguém que falaria e imploraria por você a cada segundo, mas sofre calada, a medida do possivel, porque sabe que é isso que você quer? Você já se sentiu especial assim? Imagina que louco a gente ter o privilégio de saber que somos especiais dessa forma pra alguém, saber que um dia tivemos a capacidade de mudar uma historia. Saber que não importa o que aconteça seremos lembrados. Imagina que louco ser a razão da vida de alguém? Não, melhor ainda, imagina que louco ser a razão da vida de alguém mesmo não fazendo sequer mais parte da vida desse alguém?! Você já se sentiu especial assim? Se a tua resposta foi não, não seja tola, você é tudo isso. Você é especial assim pra mim.

sábado, 11 de maio de 2013

Escrevi teu nome na umidade do espelho do banheiro e assim que coloquei o pingo no i, sua imagem surgiu refletida, por trás de mim. E veio chegando como quem não quer nada, misturando as sensações da respiração quente em minha nuca e do cabelo gelado em minhas costas. Olhando sua imagem era impossível controlar minha cara de boba. Tá rindo de que? Eu devo ser mesmo muito apaixonada por você. Então você me vira e me dá um daqueles abraços que só você sabe dar, e no mesmo instante me faz sentir que eu não poderia estar em nenhum outro lugar do mundo, com nenhuma outra pessoa do mundo, fazendo com que eu me sinta a pessoa mais importante da sua vida. Ah! E como eu quero acreditar na eternização dessa importância. Então você se afasta. Me molhou toda! E você ri. Longe demais. Me aproximo de você como quem quisesse dar o troco, e te beijo. Ah, o seu beijo, aquele beijo que encaixa no exato momento que nossos lábios se encontram. Nesse segundo consigo resumir a minha vida e tudo que tenho sonhado pra ela. Que engraçado, só me vem você e uma vida a dois na cabeça. Paro de te beijar, sinto sua boca encostar em minha orelha. Eu te amo. Os olhos se enchem d'água. Eu também. Então a gente se solta, cada uma para um lado, mas sei que não por muito tempo. Me viro novamente para o espelho e percebo que a minha cara de boba ainda permanece, firme e forte. Certamente, o amor da minha vida.